quarta-feira, 30 de maio de 2018




AS MANS DA TERRA 



Escoei a noite na leitura dos 36 subtítulos deste livro de que vos falo, com o título central “AS MANS DA TERRA” de autoria de Laura Rey Pasandin, da editorial Toxosoutos, 2ª edição – 2017.
Por esta novela, plena de histórias e memórias que assinalam um tempo não muito afastado, o dos nossos pais e avós, (mas continua algures...) a autora abre-nos a porta de uma narrativa leve e consequente que é, antes de tudo e sobre tudo uma literatura de denúncia à fome, à miséria, às  péssimas condições de vida e de trabalho de todo um povo, embora circunscritas a uma família e, por esta via, um justa homenagem à mulher, como nos diz a autora  no  Epílogo

 ”... as mulleres que viviron na sombra, as mulleres relegadas aos recunchos da nosa história, as mulleres que morren sen ver dignificado e valorado o traballo ao que consagraron a súa vida.

É sabido que as principais características da novela sempre confluíram e encontram suporte nesta trilogia: diálogo, precisão e na densidade. E, nesta linha de conta, Tchekhov atesta que “a novela precisa de causar um efeito singular no leitor: emotividade.” Aliás, bem marcante no correr da leitura.
Falamos de literatura. De uma literatura que assenta numa dinâmica do conhecimento, não só no relacionamento dos personagens, o modo como os veste e lhes dá nome (os mesmos nomes, os mesmos rostos a mesma voz) tendo a mulher como protagonista de uma leitura que nos conduz subtilmente ao prazer do texto, ao encontro e encanto de cada história, o enigma dos sonhos que traduzem a realidade em ondas de apetecida prosa. E, nesta convivência, transporta para a  memória do leitor verdadeiros momentos de engenho e arte no domínio das relações interpessoais, ao arrepio dos fabulosos nomes que   ainda nos são familiares: Manoliño, a Lola, o Xanciño, e por aí fora.
 Não se trata aqui de fantástico nem de imaginário, mas sim de recordações que, através dum cunho tão preciso quanto evidente, nos deixam belíssimas passagens nas imagens que Laura Rey Pasandin quis registar nesta sua obra, mostrando o seu talento de excelente narradora, e por isso, brinda-nos com títulos que a projetam para uma linha de alto nível literário.

Álvaro de Oliveira






Poemas De Amor En Outono

Toño Núñez

Dou-me, livre de qualquer ânsia, a esta apetecível e atenta leitura e, agora em jeito de curto comentário, sobre ela tecer breves considerações ao livro que há uns dias me chegou às mãos pelo próprio autor Toño Núñez, dado à estampa por FACHINELO,  em 2ª EDIÇÃO. 
Há um propósito imparável nos poetas que se traduz na vontade de abraçar o mundo e nele se tornar seu mensageiro que é ao mesmo tempo vocação, desafio e convite. Tem, para isso, o poeta Toño Núñez a grata vontade de transportar, pelas páginas marcantes deste seu livro, a mensagem  para um mundo cada vez mais afastado dos seus valores culturais e sociais. 
Mas é este apontamento que  nos direciona para uma literatura de combate ou desta aurora iluminada pelos raios do sol e aquecida pelo calor das palavras, em que registamos o seu valor estendido desde o sonho ao silêncio e à «música que se alonga e non se apaga» mas também ao esplendor dos dias numa dinâmica de atitude em relação à mensagem, o pormenor sempre mais que necessário que toma lugar maior na literatura, projetando-a para espaços do pensamento e do conhecimento crítico e cientifico. 
Estamos perante uma poética que visualiza e dá viva expressão ao sentimento do poeta.  Tudo cindido num ritmo preciso e precioso na aposta de novas formas estéticas, aliado ao tempo em que «As pedras do camiño erguían a súa protesta.» o tempo presente que embala o berço dos poemas. E, portanto, está aqui traçada a marca que define os grandes poetas como peregrinos que caminham ao encontro de um novo tempo poético, tendo como objeto central a palavra nova. Por outro lado, é aí que ele acolhe recanto para o seu canto não como sinónimo de partida, mas sempre num vincado desejo de chegada  «Chegastes coma brisa / con arrecendos de amor».  Nesta linha de conta, pode-se afirmar que a poética de Toño Núñez  revela, antes de tudo, conhecimento e presença a par de uma elegância notável que assenta neste expressivo olhar que lhe inspira este fragmento do poema intitulado Muralla: 
“Por sempre matria e musa serás
da xente que habitamos esta fraga.
E à que chegue tamén acollerás....”
Por conseguinte, estamos diante de uma poética plena de emoções vividas ao ritmo de paixões excecionais a valorizar uma musicalidade que lhe é inerente, alguns instantes de vida iluminada que se vai transfigurando em poemas densos e suculentos que o autor procura partilhar connosco e se estabelecem na grande plataforma da arte de bem escrever. 

Álvaro de Oliveira

terça-feira, 29 de maio de 2018

No Balouçar do Vento
Poesia de Antom Laia.
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Tomei em mãos o livro, que se lê sem desviar o olhar, do poeta e amigo Antom Laia, com o título NO BALOUÇAR DO VENTO, contendo desenhos de Xosé Tomás, que me foi oferecido pelo autor no III Encontro Xuntos Pelas Artes, Braga, Maio de 2018. Chego ao fim e, no último poema, fixo estes versos que traduzo: «Arda pois o poeta no lume bravo, mas o poema se converta em cinza...» reside aqui uma vontade: que o poema e o poeta sejam inseparáveis.
Assim assentamos visão que transforma o sonho em vontade, esse instante líquido que está na essência dos poetas, quando estes sentem estar a “arder” em poesia, depois de tomarem os búzios do silêncio, ficando em relevo o comparante: «Como se me chegasses o lume / às veias abertas do infinito.» outro título que o autor oferece e nos coloca ante esta afirmação: «O sonho de um poeta é respirar poesia»
É então que o poema toma lugar na grandeza da sua identidade graças ao seu carácter em revelar-se na ampla plataforma das letras, no seu estado mais puro e mais profundo, enquanto portador da mensagem.
Daí poder-se afirmar que Antom Laia tem do fenómeno poético uma visão abrangente da palavra e desse outro sentido que evoca em cânticos ao amor e à mulher e que nos vai cativando a atenção pelo deleite dum discurso, denso e pleno de conteúdo. Guardamos dele uma leitura séria, porquanto se perfila já ladeado entre aqueles que evidenciam uma mais que refinada poeticidade e que advém de uma finura quase inesgotável, a par dum lirismo que esvoaça pelas franjas de um erotismo descomplexado. É, portanto, uma poética plena de sensibilidade, entrecortada, aqui e ali, por imagens que se projectam na mensagem que é amor, e a mensagem mais iluminada e bela não necessita de muitos rodeios, mas de uma procura do sujeito poético, como a que preside e lidera todo o percurso deste volume.
Do mesmo modo, assinalamos a leveza com que o poeta nos canta a maravilha do poema livre ou em forma de soneto e que é sal e raiz, mulher e vento, mais o aroma que ele lhes empresta, como acontece com a terra, a água, o silêncio, o lugar, as manhãs e os instantes perfumados da vida. Há, assim, em toda a estrutura poética, deste autor um sentido apurado que nos encanta e convida à leitura e, dela, desfrutar da beleza semântica que o texto nos dá, preenchida por uma harmonia e uma musicalidade que lhe é caractrística, como nos diz Félix Azúa: «em poesia a música e a palavra embalam-nos para a vida.» Corroborando desta opinião, apraz-me dizer que Antom Laia recebe e partilha, neste Balouçar, os signos que lhe chegam embalados pelos vento da poesia.
Álvaro de Oliveira

terça-feira, 22 de maio de 2018




As Lagoas e a Terrana poesia de Xosé de Cea


Tomo em mãos o livro de poesia do meu amigo e poeta galego Xosé de Cea, sob o título “VILAREDA”, editado pela Asociación Cultural Rosalía de Castro, dividido em três subtítulos: I. TOPOS; II. ANTHROPOS; III: EPOPTEIA” com um curto mas incisivo prefácio (Limiar) do escritor Xosé Vasquez Pintor.
A página branca que sempre apaixonou e foi convite para o homem é o palco sagrado e quase único onde os poetas depositam confissões, emoções, momentos íntimos, e o texto poético que dele emerge é o resultado visível dessa confissão sublime onde a voz se evade das arcadas do silêncio que era sonho e memória, ânsia e espera, e que, doravante, configura a realidade.
É aqui que o poeta se impõe, e se expõe no texto e o reveste de palavras, essa ferramenta inacabada, mas sempre renovada e reinventada. E leio: “… como a que houbo que arrastrar / no pulso botado contra a lagoa, /mai cos seus brazos de nena na terra, / rastros e rastros/ de terra arrastrada”...
E, mais ao fundo da página: “...e tamén pai cos seus brazos de neno / baixando a maza coma un raio / para fender pedra na canteira, tres pesetas a hora,/ oito horas ao dia, / mellor que coidar ovellas.”
A poética de Xosé de Cea a elevar-se como um grito contra a agressão à natureza, no caso vertente, localizada em Vilareda, /Palas de Rei, /disque Galiza. Noutro andamento, diz-nos que, “Cuspo na terra / para amasar unha lama / que me embarre os ollos/ e me devolva / a visión: / un universo onde sobreviven/ intactas/ todas as lagoas. Tamén a miña.
Mas sempre o poeta na luta por ideais nobres e a sua persistência… aí o temos a revelar ideias e emoções, imagens inteligíveis, uma poesia do sentido e, por isso, sentida. E o livro é essa janela de letras virada e exposta para o mundo que conduz o poema inteiro para patamares de iluminada grandeza.
Falamos de um poeta autêntico, e atento ao que o rodeia, e nada, portanto, se lhe escapa nesta evocação à terra, à água, às lagoas abolidas, aos pais e aos avós.
Podemos dizer que em Xosé de Cea pontifica o toque de um espírito sensível, um peregrino da natureza, que se mostra a partir duma escrita de excelência e que assenta nos pergaminhos líricos de um Ser plural que somos nós.

                                                                                      Álvaro de Oliveira

domingo, 5 de novembro de 2017







Um Outro Olhar Pela Escrita


Sempre que coloco o olhar por sobre uma obra literária e me sinto embalado pelo entusiasmo que ela me transmite, é aí que, por longos espaços de tempo, tomo as suas páginas como planícies de beleza, de liberdade e de prazer. Outras vezes caminho por sobre elas como quem anda à procura de si mesmo.
Sou feliz assim! Daí, ainda muito cedo, ter descoberto que leio por gosto, por vontade e por necessidade. Por gosto, porque amo a língua portuguesa; por vontade, porque ler, para mim, faz parte da minha alimentação diária; por necessidade, porque vou ao encontro da identidade do povo que somos.
É claro que o escritor tem ao seu dispor, enquanto peça de ferramenta, a palavra. É então que ele a coloca em constante mutação, procurando dar-lhe um sentido quase mágico que é igual ao poder de transmitir a mensagem que pretende dar ao leitor.
E ler não é apenas colocar um outro olhar sobre o olhar de quem escreve; é também beber pelos fabulosos e fantásticos rios da ficção e pelas searas indecifráveis e indefiníveis da poesia, é entrar na magia de uma estória, de um conto e de um romance e viver o sonho de um poema. É sentir a vida correr pelas grandes avenidas do pensamento e do saber. É, acima de tudo, ter sobre o objecto escrita um sentido crítico. É também ter o privilégio de saber que um livro fala-nos da memória do passado e nos projecta a luz para o futuro.



         Álvaro de Oliveira




sexta-feira, 5 de maio de 2017




ESBOÇO - Livro de Poesia
             de 
Sílvia Mota Lopes



À partida começo por me sentir particularmente feliz com este curto texto onde encontro um discurso que me enche por dentro, porquanto se trata de uma obra que desafia a arte de poetizar e, por outro lado, permite à autora exprimir as suas emoções e os seus estados de alma. A partir daqui (e com que força!) provém o ensejo de transmitir em cada verso uma energia inesgotável capaz de cativar a atenção do leitor, sabendo-se que a poesia aparece identificada com a própria arte, o que tem plena razão de ser uma vez que a arte é por si mesma uma forma de linguagem. Assim, a poética também pode ser explicada, como o modo de uma pessoa se expressar usando recursos linguísticos e estéticos.
Uma ideia de mar quando as gaivotas beijam as sombras dos seus olhos, duas palavras unidas ao entardecer assente nos espelhos, os espelhos da imensidão ou a vibração do rosto, umas vezes agressivo, outras calmo e apaziguador em instantes de vento ou brisa apetecida pelas vagas, beijos que vestem as aves, ternos suculentos. Eis a razão pela qual me é grato citar Garcia Lorca: "A poesia é a união de duas palavras que ninguém poderia supor que se juntariam, e que formam algo como um mistério".

Por este alinhamento trago à liça estas breves considerações, não sem antes colocar em aviso de que a Sílvia possui já estatuto de uma poetisa de sonhos perfumados e líricos. Daí a admiração nutrida por uma escrita consequente, solta, breve e livre e a mensagem sempre um apelo aos eternos dizeres do tempo.

                                                                                                Álvaro de Oliveira
curto excerto  de um texto distribuído pela imprensa

terça-feira, 7 de março de 2017


José da Silva Moreira - Professor e Poeta
Natural de Braga


O que aqui me traz, de facto, é uma abordagem ao novo livro de José Moreira da Silva, “Ósculo na Areia” - SONETOS - Edições Calígrafo. Relendo-o, o que me ofereceu um prazer imenso, pude observar, no correr destes bem mais que uma centena de sonetos, o rigor do ritmo e a sua harmonia, a sobriedade de uma rima difícil e rica e, a um terceiro tempo, a sonoridade musical que deles sobressai, argumentos que me cativam e que sigo de página em página, numa leitura atenta que me enche a alma e me encanta. Poemas que considero ética e socialmente interventivos em que o autor se apronta na exigência da mensagem, tendo apostado na singularidade desta obra, o que lhe dá verdadeira amplitude literária.

Entre outras grandezas, em que toma relevo alto a arte, depressa me apercebo que este livro de Moreira é, em si mesmo, uma arte na própria arte, fazendo dela parte uma aliança da solidariedade, testemunho que se eleva em relação ao homem (e este com a natureza), o detalhe levado à tona de uma textura conjugada numa harmonia musical que lhe dá precisa identidade poética. Assim:

“Criança
Eras lágrima de sal, ósculo na areia,
Polícroma vaga em finos horizontes,
Linha de terra, ilhas verdes, altos montes,
Sonho de fogo em noite de lua cheia...

Eras, amor, eras espera, eras sereia,
Enlace doce, via líquida de pontes,
Foz, primavera, rosas, encantadas fontes,
Anseio irretorquível, labareda, ideia!...

Estrugem, horrendos, espíritos de treva,
Réprobos frutos do ventre inteiro de Eva,
E choro, fujo, adormecido na bonança...

A tua fúria, mar, o desamor de Europa,
Os dentes do mostrengo, marte, a sua tropa...
Mas ninguém viu que eu era só uma criança?

Aqui o poeta arranca uma funcionalidade da mensagem, quase única, fonte pura a espanar-se no leito da página, o timbre que aflui contra o fio de enigmas perturbadores a que o autor apelida e estrugem, espíritos de treva e, no terceto seguinte lamenta, a fúria, o desamor do mostrengo, ou, nesta visível inquietação, fazendo questão de citar «a sua tropa». E a questão evidencia-se agora como luz repentina entre o famigerado apagão causado pelos espíritos de treva: 
«Mas ninguém viu que eu era só uma criança?»
Uma voz contra o abandono e o esquecimento.
Tudo, portanto, é movimento e intensidade, vivência, trabalho exaustivo, enunciação, apelo, registo que a arte impõe pela raiz do sentimento do poeta. Como no dizer da autora do prefácio, Micaela Ramon “Na maior parte dos sonetos, o poeta assume a dupla condição de sujeito da enunciação e do enunciado para expressar os seus próprios sentimentos e vivências...”
Daí a poesia, esse pensamento convertido em emoção, encontrar exaltação na palavra, o seu caudal comunicativo, com suporte nesta trilogia: o seu sentido semântico, o seu sentido rítmico e o seu sentido musical. 

*) Pequeno excerto do texto 
que fará parte da obra "Um outro Olhar pela Escrita"